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  • Por Roque Tomazeli

SindTur defende planejamento para liberação de novos hotéis em Gramado


Crédito foto: Roque Tomazeli

O presidente do Sindicato da Hotelaria, Bares, Restaurantes e Similares da Região das Hortênsias (SindTur), Fernando Boscardin, defende planejamento da matriz econômica, social e urbana para liberar a construção de novos hotéis em Gramado. Para Boscardin, o poder político, que libera as obras, precisa pensar no custo versus benefício da sociedade. Para ele, é preciso um sistema de freios e contrapesos para evitar que os gigantes esmaguem os pequenos. Confira a entrevista.

P – O SindTur defende uma limitação na construção de novos hotéis em Gramado. Por quê?

R – Sim. Porque as administrações públicas das principais cidades turísticas do mundo possuem este controle e não é para agradar os hoteleiros já estabelecidos, criando uma espécie de “reserva de mercado”. Este controle existe para impedir concorrência desleal, evitar efeitos negativos como superoferta, que traz queda na arrecadação, inchaço habitacional desregrado em cidades que não possuem mão de obra em quantidade suficiente para a demanda, que é nosso caso, e dificuldades para a mobilidade urbana com veículos lotando as ruas, sem falar no impacto ambiental. Hoje, em Las Vegas, até 2050, não se pode construir nenhum novo hotel. Se você quiser um, tem que comprar um existente. Porque se trata de planejamento da matriz econômica, social e urbana. Conceitos que precisam ser levados em conta, para uma sociedade justa e organizada.

P – Os novos empreendedores dizem que o mercado é quem deve regular a construção de novos hotéis – e rejeitam legislações restritivas. Isso procede?

R – Não procede. Essa é definição do capitalismo selvagem. Se hoje, no Brasil e no mundo, mesmo nos EUA, modelo da livre-iniciativa, fusões de cervejarias dependem do controle governamental, no Brasil via o CADE, para evitar que uma empresa domine o mercado estabelecendo o monopólio e quebrando ou sufocando as demais, imagine no que diz respeito à hotelaria. Uma cidade que se pretende turística precisa de um sistema eficiente de freios e contrapesos para evitar que gigantes esmaguem os pequenos. Por isso, as liberações precisam obedecer a estudos de taxa de ocupação. Se há demanda reprimida, libera-se, caso contrário, não. Há espaço para todos, mas com planejamento. Quer fincar uma bandeira em Gramado? Ok. Mas por que 600 apartamentos? Que tal 200, mantendo o equilíbrio das taxas de ocupação. Temos água, luz, esgoto, ruas, avenidas, escolas para os funcionários deste estabelecimento, creches para seus filhos, vagas no hospital para absorver isso hoje? Não temos. Então não se trata apenas do Deus do mercado entender isso ou aquilo. O poder político, que libera ou não as construções, precisa pensar no custo versus benefício da sociedade.

P – Setores como a construção civil e moveleira acreditam que a chegada de novos hotéis melhoram seus negócios na fase de construção e mobília?

R – Outra lenda. Hotéis gigantes como os que estão pretendendo se instalar ou se instalando, via de regra, não contratam empresas de móveis daqui, salvo exceções. Empresas maiores possuem linhas de produção com maquinário mais avançado que diminui em muito o custo e a velocidade para mobiliar 200 ou 600 apartamentos. Fosse assim, pela alta demanda, não teríamos várias empresas moveleiras locais em dificuldade. E, pelo que tenho visto nas placas, as empresas de construção contratadas, em sua maioria, também não são de Gramado, em virtude da quantidade de operários necessários para construir estes gigantes.

P – O secretário de Turismo, Edson Néspolo, defende o empreendimento do Hard Rock Hotel. Ele diz que vai além da hotelaria, pois atrai turista também para entretenimento e compra de souvenir que são marcas da rede, e que ajudaria elevar o status do nosso turismo (ABC Domingo, 19/3). De que forma o senhor recebe tal declaração?

R – Não conheço o projeto no detalhe. Concordo que bandeiras reconhecidas podem vir a somar, se resistirem à tentação de atirar os preços no chão devido à sazonalidade ou estratégia comercial predatória, como temos visto em alguns casos de redes já estabelecidas, abusando, no meu entendimento, do poder econômico. Discordo frontalmente da quantidade de unidades que, deixo bem claro, ouvi dizer que foram autorizadas. É um despropósito, se for verdade, que serão construídos 600 unidades, o que vai ajudar a empurrar vários pequenos e médios empreendimentos, especialmente os fora do Centro, para o buraco.

P – E a geração de novos empregos?

R – A narrativa de geração de emprego não me serve se não tem um estudo de quantos empreendimentos demitirão pessoas, seja porque a ocupação vai cair ou eles simplesmente fecharão. Veja: Gramado tem hoje 3% de desemprego. Que não é desemprego, é mobilidade. É gente que sai de um emprego para outro em torno de 90% dos casos. Os demais estão no seguro desemprego ou nem buscam um emprego. Se um empreendimento vai gerar 300 empregos, não são necessariamente novos empregos. Ele vai tirar funcionários de outros hotéis que, ou não contratarão mais porque a ocupação cairá ou terão que trazer gente de fora, inchando a cidade e criando bolsões periféricos que precisam de mais água, luz, calçamento, hospital, médicos, postos de saúde, etc. Ou seja, investimento público. Mas como investir mais se as prefeituras já estão no limite e com a arrecadação hoteleira caindo por conta dos preços baixos motivados pelo excesso de hotéis? É uma conta que não fecha. Estamos importando problemas que hoje não temos. Será mesmo que o custo versus benefício é bom para a sociedade? Tenho sérias dúvidas, sem gatilho para autorizar novas construções, baseado na taxa de ocupação.

P – O aluguel de quartos, casas e apartamentos residenciais para turistas interfere significativamente no faturamento do ramo hoteleiro?

R – Interfere e muito. Para mensurar o quanto, imagine o seguinte: só em Gramado são 200 meios de hospedagem oficiais. Mas se você abre a Booking, maior site de vendas de diárias do mundo, e procura Gramado, você verá que teremos mais de 600 meios de hospedagem catalogados ali. Logo temos, extraoficialmente, em um site apenas, três vezes mais leitos do que os oficialmente cadastrados. É só você pesquisar, 99% destes meios de hospedagem fora dos 200 regulamentados na Prefeitura, não aceita cartão de crédito. Agora imagina o tanto que deixa de ser recolhido de impostos, embora as pessoas que se hospedam ali usem toda a estrutura financiada pelos pagadores de impostos da cidade. O mundo já despertou para isso: Paris, Nova York, Berlim, Barcelona, Algarve (Sul de Portugal), Miami e San Francisco já proíbem ou regulam o aluguel de temporada. O problema é que o Brasil, vanguarda do atraso, neste tema, ainda enxerga o aluguel de temporada de uma forma romântica. Ou seja, acha que só quem pratica é o sujeito que economizou uma vida e tem um apartamentinho a mais e ganha um dinheirinho com isso. Nada, isso virou especulação imobiliária. Tem gente construindo prédios inteiros para transformá-lo em um hotel clandestino, sem exigências comerciais legais. É preciso regulamentar este tema no Brasil. Muitos oferecem serviços como wifi, café ou TV a cabo, o que é vedado por lei. Mas o Brasil, provavelmente, como sempre, vai ser um dos últimos países do mundo a regular isso. Faz parte da nossa tradição do atraso, da informalidade e de levar vantagem em tudo.

P – Que tipo de controle deve ser feito para conter essa prática de aluguel de diárias ou por temporadas de imóveis residenciais?

R – O AirBNB, por exemplo, é proibido no lugar onde foi criado: San Francisco, na Califórnia. É preciso ou regulamentar, fazendo com que todos estejam dentro do sistema para uma concorrência honesta e para que o hóspede tenha garantias de alvarás e bombeiros ou então desonerar os hotéis. Caso contrario, deixo uma pergunta: se eu transformar meu hotel em residência e oferecer os serviços nos moldes do aluguel de temporada de hoje, vou ganhar mais ou menos dinheiro? Pagarei mais ou menos impostos? Empregarei mais ou menos pessoas? Mas vai ser bom ou ruim para o conjunto da sociedade em termos de arrecadação e responsabilidade social? As respostas são óbvias. O empreendedor regularizado está fazendo papel de idiota e o Ministério do Turismo está aplaudindo. Eu estive lá, e Brasília não tem o menor conhecimento do que se passa na vida real.

P – A Taxa de Turismo Sustentável, instituída pela Prefeitura e paga pelos hóspedes dos hotéis, tem mostrado resultados satisfatórios na arrecadação e na aplicação?

R – Em termos de arrecadação, me parece que sim. A Gramadotur esperava mais, mas tivemos queda na ocupação ano passado e isso se refletiu no recolhimento da taxa. Quanto à aplicação, penso que este ano é que vamos começar a aplicar. Até agora, estávamos fazendo caixa, deixando o gado engordar, para aplica da melhor forma.

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