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  • José Hamilton Ribeiro*

NÃO QUERO SER DEPUTADO - TRABALHA MUITO E GANHA MUITO POUCO!

José Hamilton Ribeiro

Toda vez que fui Editor-Chefe (de TV) ou Chefe de Redação (em jornal ou revista) e que me coube dirigir a pauta, sempre olhei com muito pé atrás toda iniciativa de fazer matéria contra algum Parlamentar. Fosse ele Federal (Câmara e Senado), Estadual ou Municipal (Vereador).

Tive sempre, e instintivamente o maior respeito por quem – como os parlamentares – precisam do aval do povo para manter o seu emprego. Quantos juízes, generais, executivos de multinacionais, donos de jornal, “tycoons” de tevê, marechais de rádio – quantos deles manteriam o seu poder (muitas vezes exercido de forma arrogante) se precisassem, de tempos em tempos, prestar contas ao povo e ser reafirmado no cargo?

É uma pauta fácil fazer matéria para meter o pau em Deputado, Senador, Vereador, dizendo principalmente que eles ganham muito, têm carro com motorista e não fazem nada. É o tipo de pauta de chefe de reportagem medíocre (incapaz de pensar em assunto melhor) ou então – como é o caso mais freqüente – de “encomenda” do patrão, para desviar a atenção do povo para o crime e o roubo, que geralmente são feitos longe dos Parlamentos.

Uma outra coisa que me leva, também instintivamente, a ver com bons olhos os parlamentares – é o fato de que eles pertencem ao mais fraco dos poderes, o Legislativo. O Executivo tem canhões e, principalmente, dinheiro – para amedrontar ou acalentar os meios de comunicação. O Judiciário tem o poder de prender ou pelo menos incomodar os poderosos, na hora de uma sentença, de uma diligência, ou até tão-somente de uma ameaça. E o Legislativo – de que dispõe para afrontar e pôr medo no patronato e nos Meios de Comunicação?

O Brasil é um país atrasado, e daí nos advém, entre outras desgraças, o desconhecimento do mecanismo da democracia, e a importância da representação política. Por que Fulano de Tal é Deputado? Quem fez de Sicrano da Silva Senador? Fulano é Deputado, Sicrano é Senador – porque eu, meu irmão, meu vizinho, o filho do pedreiro, a sogra do vigia, todos nós – achamos que ele era o melhor, que merecia assumir o lugar de nosso Representante, porque sua história e seu passado fizeram dele um líder, um chefe, um homem de bem.

Muito bem: após a eleição, após toda a angústia, o sofrimento e a despesa de uma eleição – vem um jornal e começa a tratar o Representante do Povo como se ele fosse um desqualificado. Que é isso senão um desconhecimento, uma ignorância, uma incontida má-intenção em relação à Democracia? Que é isso senão falta de prática democrática? Será que os donos de jornais, de rádio, de tevê, gostaram tanto da ditadura que, inconscientemente, atacam o Legislativo – como se sonhassem com a volta dos militares e dos a-i-cinco?

Olha, eu sou hoje um jornalista médio, muito longe dos cargos executivos de nossos grandes jornais e emissoras de tevê. Mesmo assim, salário por salário, eu não troco o meu, pelo de um Deputado Federal. Além de ser obrigado a ter duas casas (uma no Estado, outra em Brasília), de gastar uma nota com presentes de casamento e batizado, de ser obrigado a andar sempre bem vestido e dar gordas gorjetas – ainda tem essa desvantagem de, mal começou um mandato, já ir pensando em como não perder a próxima eleição... E de viver o tempo todo como uma vidraça na mira do estilingue de qualquer moleque. Não há dinheiro que pague!

Olha, eu respeito um Deputado, um Vereador, um Senador. A Nação depende dele, a Democracia depende dele – e não há substituto para a Democracia. Ou é Democracia, ou é indignidade.

Por isso eu fico realmente uma fera quando sei de um Deputado, de um Vereador, de um Senador – que não honra o seu mandato. Que se vende. Que se mete em negociatas. Que envergonha a instituição é o país.

Eu sei que a maioria absoluta de nossos parlamentares é de gente honrada, são os melhores homens de nosso país. Entre seus deveres – que não são poucos, nem leves – está o de vigiar a sua casa, e não deixar que os maus fiquem soltos e livres para faze sujeira e manchar a fama da espécie inteira.

*O texto de autoria do jornalista José Hamilton Ribeiro mantém a ortografia original da publicação na Folha de São Paulo, edição de 6 de junho de 1991.

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