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  • Por Roque Tomazeli

A primeira-dama de Gramado, Ivone Dinnebier

Atualizado: 20 de jun. de 2021

Morreu aos 83 anos dona Ivone Merckel Dinnebier (13 de agosto de 1937 – 19 de junho de 2021).


Conheci a mulher que foi a primeira-dama de Gramado por 14 anos em 1975, quando fui trabalhar na loja dos Móveis Dinnebier (prédio localizado na Avenida Borges de Medeiros, esquina com a Rua João Petry, instalações depois consumidas pelo fogo).

Vice-prefeito Jorge Bertolucci, primeira-dama Ivone Dinnebier, prefeito Nelson Dinnebier e secretário Roque Tomazeli, na posse em 1º de janeiro de 1997


Para falar a verdade, “conheci” é maneira de dizer, pois ela, nas poucas vezes em que passava pelo meu setor de trabalho, me cumprimentava e se dirigia ao escritório.


Uns 22 anos mais tarde, no último governo de Nelson Dinnebier (1997 – 2000*) fui secretário municipal do Trabalho, Habitação e Ação Social quando, definitivamente, conheci dona Ivone.


Em setembro de 2000, durante a campanha eleitoral em que buscava um quarto mandato, o prefeito Dinnebier morreu; em outubro, me elegi vereador, para um primeiro mandato.


Nos oito anos seguintes, na época do Natal, em meus dois mandatos como vereador, sempre enviava um cartão para dona Ivone – uma maneira de mostrar carinho e respeito.


Certa vez dona Ivone me ligou para agradecer a me contou que gestos como o meu tinham diminuído bastante, “depois da morte do Nelson”.


Então ela disse, ao encerrar o breve diálogo, algo mais ao menos assim: nós sempre gostamos de ti, Roque. Tu és um vulto no meio da multidão.


Isso foi há uns 15 anos e não voltamos a conversar, mas jamais me esqueci do generoso elogio recebido de dona Ivone.


Faço este registro com sentimento de pesar, na forma de homenagem, e transcrevo um texto extraído de publicação da Prefeitura de Gramado (1982) intitulada “Balanço de uma administração”.


A MÃO ESQUERDA NÃO PRECISA SABER O QUE A MÃO DIREIRA DÁ

“Dona Ivone” – é assim que a pobreza de Gramado a conhece e estima. É a ela que acorre nos momentos de dificuldades, de tristezas, de privações e até de injustiças, num mundo eivado de tantas injustiças. E para cada um ela tem uma palavra de conforto, a solução de um problema, um jeitinho para tudo. Ninguém que dela se socorra sai de mãos abanando, “dona Ivone” sempre quebra o galho.


Pois “dona Ivone”, a senhora Nelson Dinnebier, esposa do Prefeito Municipal Nelson Dinnebier, não considerou o nosso apelo, deixou de vir em nosso socorro, nessa sua roda-viva de a tantos socorrer. Foi quando pretendemos juntar alguns elementos que ilustrassem um pouco a sua atividade na presidência da Associação de Assistência e Caridade, para publicação no relatório que se encerra nesta página.


“A mão esquerda não precisa saber o que a mão direita dá” – repetiu ela as palavras de Jesus. Assim é “dona Ivone”, dinâmica na consecução de seus misteres em beneficio dos desamparados, mas sobretudo modesta e decidida nos seus princípios.


Porém, não podíamos simplesmente concordar com “dona Ivone”, dar-lhe as costas e omitir-nos as suas generosas realizações. Não podíamos encerrar este trabalho sem aludir às milhares de peças de vestuário, calçados e abrigos; às centenas de fogões, camas, colchões e móveis, às dezenas, sim, dezenas de casas que ela distribuiu, catando material por todo canto, implorando auxílio de um e de outro, para que alguns tivessem o seu teto. Se não possuímos em mãos dados estatísticos que revelem quantos e quantos quilos de alimentação ela distribuiu, a sociedade gramadense não vai levar isso em conta, pois que ela, a sociedade gramadense, conhece as evidências e jamais deixou de prestigiar as obras de Ivone Dinnebier, acorrendo sempre aos seus já tradicionais chás de benemerência.


“A mão esquerda não precisa saber o que a mão direita dá”.


Achamos que entre “dona Ivone” e Deus está tudo claro e devidamente julgado. Certo, respeitamos o seu silencio, a sua modéstia, o seu desejo de “não aparecer”. Mas nós, auxiliares diretos de seu marido, o Prefeito Nelson Dinnebier, que acompanhamos dia a dia a sua luta insana, o seu sacrifício e o seu desmedido amor ao próximo, não quisemos silenciar nesta hora, trazendo em nome dos humildes a quem ela sempre estendeu a mão, o reconhecimento por tudo que ela construiu à frente da Associação de Assistência e Caridade. Sabemos que foi um trabalho árduo e incessante, mas sabemos também que valeu a pena. A coluna do “haver”, na contabilidade do Senhor, está por demais favorável à “dona Ivone”.


Nossos agradecimentos extensivos às denodadas companheiras de labuta da senhora Ivone Dinnebier, obreiras anônimas em favor da causa dos desvalidos, exemplos para gerações que estão por vir.


Assinaram:

Garibaldi Ferreira dos Santos;

Remy Henrique Zatti;

Paulo Borges Moreira;

Setembrino Boniatti;

Pedro Gomes da Silveira;

Ary Hugo Seidl.


*Prefeito de Gramado de 1977 a 1982; 1989 a 1992; 1997 a 2000.


Crédito foto: arquivo pessoal Roque Tomazeli